3 de março de 2018

O TURCO DO ‘’LOJA MEU’’

QUER SABER UM POUCO DA HISTÓRIA DO SAÍD? Primeiro, ele não é turco,é libanês,mas, simplificando, se é da Turquia, se é da Síria, se é do Líbano são chamados ''turcos'' e motivos existem,explicar agora

O TURCO DO ‘’LOJA MEU’’

QUER SABER UM POUCO DA HISTÓRIA DO SAÍD?

Primeiro, ele não é turco,é libanês,mas, simplificando, se é da Turquia, se é da Síria, se é do Líbano são chamados ''turcos'' e motivos existem,explicar agora deixaria a história muito comprida.

POR QUE VINHAM PARA O BRASIL?

Melhorar de vida,esperança,foi depois de uma visita do D.PedroII no Líbano, primeiro vieram para ajudar na mão de obra e de lá em 1880, de Beirute, saiu o primeiro navio de libaneses.Mais tarde com a industrialização foi aumentando. Vinham aventurar-se, chamados por parentes ou amigos.Não sabiam nada do Brasil.A comunidade libanesa no Brasil em 2010 contando os descendentes era maior que a população do Líbano.

VOU FALAR MAIS DO SAÍD, TÁ??

Saiu Saíd Mansur Cecim ainda bem moço, com apenas 25 anos , lá de seu país, o Líbano, ele morava na capital, Beirute, e veio para o Brasil. Deixou família grande, muitos irmãos, primos e a despedida foi sofrida. Sua mãe Mariam na despedida cortou-lhe uma mecha de cabelos para ter como lembrança do filho amado que dizia passar uns anos aqui e quando contava chorava, lembrava da mãe dizer, ‘’sei que não te abraçarei mais.’’

E DEPOIS DO ABRAÇO?

Saíd fez sua viagem de navio, chegou no Brasil dois meses depois, no ano de 1949.Veio para Porto Ponte onde moravam já outros libaneses, começou a trabalhar como mascate, visitando casas com mercadoria. Passou o tempo, Saíd apareceu em Guapé. Ficou hospedado na casa de D.Nasta Yunes e foi assim que conheceu sua filha Amália, moça elegante, dona do terceiro carro da cidade e dirigir na década de 40 era moderno demais, as moças morriam de inveja e o Saíde morria de amor.

APRENDEU RÁPIDO NOSSA LÍNGUA?

Que nada! Aprontava com as palavras, achava o português muito difícil e pensou até em voltar para o Líbano. Delphi que era fotógrafo recebeu Saíde para tirar um retrato que queria mandar pra família. O Delphi ajeitava o cobertor na parede, enfiava a cara debaixo do pano preto da máquina e na hora H o Saíd saía de cena, falava, falava, o Delphi não entendia nadica de nada. Saíd voltava, o Delphi enfiava de novo a cara no pano e o Saíde saía de cena de novo, gesticulava, o Delphi olhava na boca dele, achava que tinha entendido, ajeitava o turco, enfiava a cara de novo no pano preto,quando olhava para clicar, cadê Saíd? Custou entender que ele queria um cenário também, não um simples retrato, queria uma mesa,mas que sobre ela tivesse um livro, aí sim,ele de pé ao lado da mesa com a mão perto do livro.De certo a intenção era mostrar pra família no Líbano, que estava estudando o novo idioma.De certo era.

E QUEM CONTOU ISSO?

Uai! As meninas da Mariinha do João Cassiano! Eram mocinhas, juntavam com outra amigas e iam assistir a fotografança, já era costume, imagina se iam perder a cena do retrato do homem que embolava as palavras. E o Delphi? Santo Deus! Arrumou a maior correria, Saíde estava nervoso, o fotógrafo também, ele não entendia o Saíd,enfim,quando entendeu conseguiu montar o cenário,mas até carregou mesa na cabeça.Tadinho do Delphi! Foi um tempo queeeente pra juntar as palavras e no final estavam exaustos e as meninas dando risadas.D.Esmeralda viu.Era uma das mocinhas.Diz ela que o Delphi disse:Credo! Que trem mais custoso que foi tirar retrato desse turco!

E O NAMORO COM AMÁLIA, FIRME?

Demais da conta! Em 1955 Saíd já tinha o seu loja, o casório marcado, seu noiva estava feliz, seu Mália já estava com o enxoval pronto, seu sogra D.Nasta já estava preparando o festa, e enfim, chegou o grande dia. Saíd era moço bonito, vestiu sua terno, seu gravata, encontrou seu Mália na altar arrastando um grande calda. Foi uma festança muito chique e a lua de mel pra completar o chicume foi em Poços de Calda. Lua de mel em Poços era muito pra Guapé, mais que lua de mel em Paris hoje.Tiveram três filhos, Maria Eliza, Alberto e Elizabeth.

E O LOJA DO SAÍD NA AV. BRASIL?

Foi depois das águas, ele construiu sua casa com portas na frente, vendia marcas famosas, foi o primeiro a buscar mercadoria em São Paulo e trazer coisas da 25 de março, trazia até na kombi. Meus colegas de escola compravam roupa era lá, ‘’Camisa Volta ao Mundo’’ e as primeiras ‘’Japonas’’, a onda da década.Lembro-me da camisa Volta ao mundo que o Zé Arão comprou lá para o Zé Rogério.O Zite da Marieta,foi nosso professor e comprou uma lá também.

Saíde morou no quarteirão que tinha mais piada e risada em Guapé, começava na esquina da venda de seu compadre Gêra e ia até na esquina do Taíde, com um agravante,de frente morava o Zé Costela com sua galera.Os causos ferviam,por perto banca de jogo, três salões de cabelo de homem, vendas.Era um ti ti ti nas duas esquinas.Era como a central de jornalismo da Globo. E AS ANOTAÇÕES DE FIADO DO SAÍD?

O povo exagera, mas dizem que eram muito engraçadas, ‘’Moça da vestido vermelho...Homem do chapéu preto...’’ e por aí vai. Saíde, muito esperto, chegou uma cliente pedindo a conta para pagar, ele procurou, não encontrou, pra não tomar prejuízo pegou um papel e falou, ‘’Se o senhora advinha a quanto é anotada aqui ganha uma sabonete de presente de Saíde’’ e ela disse 49,20 ... (não sei que dinheiro era.) O Saíd sorriu e falou, ‘’O senhora acertou, parabéns!’’ e ela pagou a conta e levou o sabonete.

E AS INFORMAÇÕES DOS VIZINHOS?

Saíde cortava cabelo e aparava bigode no salão do Lazinho do Taíde. Tinha costume de deixar seu carro, uma DKV funcionando na garage a noite inteira.

Gostava de baralho, jogava a noite, para justificar um erro, dizer que não podia ter feito aquilo,ou quando perdia dizia, ‘’NÃO DEVIA TINHA IDO'' e na banca de jogo repetem até hoje essa frase quando o jogo sai errado. Não devia tinha ido.A frase é informação do Walquires Tibúrcio.

O Carlinho do Gêra conta que viu Saíde chorar muitas vezes de saudade falando da família e que uma vez aconteceu enquanto estava ouvindo uma música de lá.Chorou muito.

Era vizinho do Zé Arão, ambos de gênio forte, de vez em quando tinha uma treta,depois Saíde mandava quibe pra ele e faziam as pazes. D.Fia sempre dizia para o marido,''come o quibe e agradece,vizinho é igual parente''.Conviveram muitos anos.

Uma noite no bar do Clélio do Gastão, muita gente, acabaram os copos,as cadeiras e Saíde de pé no balcão,apelou e disse, ‘’Saíde sem cadeira, cerveja quente na copo da massa do tomate? Não! Saíde sai.Saiu mesmo.

Saíde teve uma kombi, ele dizia Komba meu, fez muito pic nic na balsa, nessas beiradas, com seu Mália e seus crianças.O Paulinho do João Bejamim ia junto, trazia o kombi e buscava depois, porque o Saíde gostava de uma bebidinha e daí o Paulinho os trazia de volta.

Certa vez bateram no komba dele, ele falava sentido,''Bateram no komba meu!'' e o Simônedes sobrinho da Amália, sempre da pá virada, gozador, fez até uma música sobre o ocorrido,a música chamava KOMBA MEU.

A batida foi em frente ao armazém do Fernandinho e Said conversou com o Dão (Don, dizia Said) era funcionário lá.

KOMBA MEU

Eu vou contar brocê história de una kombe que era da Said... que era da Said...

Foi no esquina do Don que se deu a confuson deu non tê ouvida a Don me dar explicaçon

Foi coisinha de minuto que virou a costa meu e a desgraçada da jiep bateu testa komba meu.

Compositor:Simônedes Custoso Yunes Cantor: Simônedes, inclusive cantava pra ele que ria muito, assim o Beto Yunes falou e rindo também.

E A CONFUSÃO DA LÍNGUA NO LIVRO ''GUAPÉ E OUTRAS HISTÓRIAS'', ESCRITO POR WALQUIRES?

-Ainda em Porto Ponte, chegou um homem de visita nos parentes dele e ao despedir disse,’’Tiau procêis.’’O Saíde falou, ‘’O senhor não tem educação.’’ Pq? Pq? Pq? A família querendo contornar a situação, e ele,’’O senhor não tem educação, não despediu de Saíde, só dos seis ali, falou ‘’Tiau Bra seis’’, comigo sete.Não despediu de mim.’’

-Ainda em Porto Ponte conversando com os parentes, ‘’Saíde vai volta bra Líbano, não consegue abrendê língua, Saíde não abrendê nunca. Brestenção, meu Líbano pessoa bregunta,Vai Bem? Se vai bem,eu fala, Vai Bem, se não vai bem, Saíde fala, Não Vai Bem, Brasil pessoa fala, Vai Bem? Pessoa responde, Vou levando, Mais ou Menos, Meio lá Meio cá. Saíde não vai abrendê isso tudo.’’

E A FAMÍLIA DO SAÍDE?

Tudo gente boa. D. Amália muito educada, simpática,excelente mãe e muito querida. Dos três filhos, Roberto virou anjo, a Beth mora em Barretos e a Mareliza mora em Guapé. Pessoas maravilhosas, educadas, muito amadas, alegres e contam a história do pai com muito orgulho, contam também que era bravo e de gênio forte demais, falam muita da saudade que ele sentia do Líbano, uma saudade absurda, acordava chorando e falando da mãe, do pai, irmãos, primos e a certeza do abraço que nunca mais aconteceria. Hoje as filhas e netos guardam com carinho os retratos e gentilmente me enviaram.

Inventaram duas vezes por brincadeira, duas vezes que o Saíde havia morrido e teve até aviso no alto falante da igreja, uma vez parou um carro de funerária na porta dele, o Tião do Gêra que era da pá virada,ouviu alguém perguntar,por que funerária ali? O Tião,cê não sabe? O Saíde morreu.Dali para o aviso paroquial foi questão de minutos.

Comenta-se que Carlota do Lazinho Ávila que tinha o quintal de muro com o Saíde,ouviu a nota de falecimento, assustou muito, foi pra cozinha,de lá viu o Saíde andando,me disseram que quase deu um troço,achou que o Saíde estava aparecendo pra ela.

O Saíde falou que o Tione do Gêra ia queimar no inferno, nas tachas quentes do capeta.O Tião jura inocência.Passou, Tione jurou,as famílias eram amigas.Até D.Alice do Gêra, mãe do Tião, comadre do Saíde saiu correndo quando ouviu a nota da igreja.

A segunda nota quando aconteceu não descobriram quem telefonou na casa paroquial, mas aí a Ana Rosa que avisava ficou muito chateada e a conversa foi que ela disse:''Agora quando falar que alguém morreu, vou lá com uma agulha, vou fincar no pé do morto, se ele não mexer, eu perceber que tá bem morridinho é que vou avisar.''

Tudo que mandava o Padre João avisar ele pá! A Ana funcionária aprendeu assim,obedecia.Há muitos anos avisaram que D.Maria Geralda havia morrido, saiu um caminhão de gente pra Formiga. Dessa vez não foi telefonema, chegou telegrama.Era muito aviso assim.

O Padre João deu muitos avisos errados, caía queném patinho.Um dia avisou, ''O Pé de Pato acaba de falecer''. Correram lá no padre, disseram que não, que estava era mal.Daí o Padre João avisou de novo,mas consertou: ''Pé de Pato não morreu, mas tá quase.''

Com essas duas brincadeiras sobre Saíde, a família sofreu,ficou chateada, mas passou, já perdoou os donos da arte. Saíde ficou bravo,mas depois de um tempo falou: ‘’Serviu bra Saíde saber que é querido, Saíde recebeu telefonema do Carmo, do Porto Ponte, do Passos, do Formiga e muita abraço no cidade.''

Cidade pequena é assim, muita brincadeira.No final todo mundo ri.Deeeeeeeeepois, até Saíde riu.

Personagem interessante esse ''turco'' do ''Líbano''. Nunca mais Saíde pisou no Líbano e carregou o peso dessa saudade. E é saudade o que ficou para os filhos da Saíde e do Amália.

''SAÍDE PODIA TINHA IDO''.UMA PENA! FOI EMBORA JOVEM.

Um salve para os netos da libanesa D.Nasta! Abraço,Beth,Mareliza e família.

Foi um prazer postar tantas fotos e um pouco da história do moço libanês.

PessoasMariaTibúrcioPadre JoãoTiãoEsmeraldaRosaWalquires TibúrcioRosaJoão
LugaresGuapéPassosFormiga
TemasFamília e CasamentoReligião e ProcissõesComércio e TrabalhoDespedidas (in memoriam)Crianças e EscolaCausos e Histórias
— Soninha
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