“UMA HISTÓRIA DE TRAVESSURAS E DESCOBERTAS''
Wenceslau Ávila
NA antiguidade não existia cidade que não fosse às margens de algum rio: Londres-Tâmisa, Paris-Sena, Roma-Tibre, Mesopotâmia tinha dois, Tigre e Eufrates, como consta em nossos livros de história antiga!
ASSIM, também as fazendas de nossa, Minas Gerais, eram próximas de algum rio, ribeirão ou córrego. Na Fazenda dos Rodrigues não era diferente: a algumas dezenas de metros da casa, estava a curva daquele “corgo” que, quando chovia forte a enchente vinha até quase as raízes do “bambuzeiro”, que meu pai plantara ali para conter a erosão que ameaçava a nossa horta.
ERA também ali que, bem na curva, existia um poço, na época onde comecei a dar as minhas primeiras braçadas. Naquele mesmo poço molhei a minhoca pela primeira vez, estou falando do anzol, com minhoca pra pegar lambaris! Neste instante um cheiro intenso invade as minhas narinas, despertadas pela lembrança do lambari frito, passado no fubá, que então exalava por toda a cozinha!
SALVO engano, “Córrego da Agua limpa”, não era o nome daquele curso d´agua, mas bem que poderia assim se chamar, tamanha a transparência daquela água, onde ficava a contemplar a evolução das “tubaranas”, esguias e ágeis, na perseguição aos pobres lambaris – concorrência nem um pouco leal com os anzóis onde nossas minhocas se contorciam! Com o tempo aquele poço foi ficando pequeno e meio sem graça.
DO ALTO de meus 8, 9 anos, eu e meus amigos, fomos em busca de mais emoção; assim, descemos mais um pouco pelo córrego e descobrimos uma parte bem mais funda e até certo ponto desafiadora, pois de cada lado as paredes (barrancos) se levantavam a mais de 5 metros de altura e lá, grandes árvores, o que deixava aquele ambiente sombrio e de um certo modo ameaçador e frio. Treinávamos para poder conseguir um dia saltar lá do alto do barranco – não vivi o suficiente naquele lugar para ter esta experiência, pelo menos naquelas bandas. Eu, Sirvo do António Martins, de vez em quando alguma visita, como o filho da Ysoleta, António, quando dava, saíamos pra nadar.
COM o tempo fomos descobrindo outros lugares, mais desafiadores, para testar a resistência e aprimorar os estilos, como o famoso “nadar de machadinho” – o máximo da técnica, que consistia em juntar as duas mãos, no formato de um machado – fazer avançar o corpo ou puxar a água constituía um enorme desafio - o deslocamento na água ficava quase que exclusivamente para os pés.
Com poços mais profundos começamos a ousar “dar os mergulhos” – quase sempre de barrancos ou até mesmo de galhos de árvores, como o do poço do coqueiro – uma emoção a mais, afinal, os galhos balançando corria-se o risco de errar a pontaria e dar aquela famosa barrigada! Quantas houveram! Para a alegria mórbida da reduzida plateia!
COM 10 anos me mudei pra Guapé, e por lá, em pouco tempo, já estava indo pro Ribeirão da Agua Limpa, para os lados do fundo da Conferência ou do Grupo escolar. Saía-me muito bem, junto daqueles moleques urbanos, friorentos e nada chegados aos mergulhos do alto de barrancos. Né Jayro?
COM o tempo os córregos foram se assoreando, como o do “bambuzeiro”, verde-amarelo, daquela casa de roça que, hoje, nem é mais nossa, ou então engolidos, como em Guapé, pela chegada do Tsunami que foram as águas de Furnas, quando a garotada começou a virar as costas para os córregos e foram pular de trampolins de piscinas com cloro e lindos azulejos azuis! Outros tempos!
(foto antiga)




