UMA APRESENTAÇÃO DO LIVRO DE DR.SANO
Sonia Maria Bom dia
Há algum tempo escrevi um texto de apresentação do livro do Dr. Sano gostaria, se achar conveniente, que o publicasse no "Bão" pois penso que vai ajudar as pessoas a terem uma idéia sobre o livro e criar mais interesse. Seguem texto e link pro livro. Merci Porque o Dr. Sano nos fez falta?
Tive a oportunidade de ter, finalmente em mãos, o tão propalado livro do Dr. Sano, GUAPÉ. Dr. Sano ou Passos Maia, é provavelmente o único guapeense a poder falar da nossa cidade na primeira pessoa. Assim, ele afirma com a maior naturalidade, sem ostentação: “Eu mudei o nome para Guapé, nome gentil, pequeno, fácil de escrever e de telegrafar”. Tirou o “A” de Aguapé, afastou as menções ao Rio Grande e a São Francisco, apesar da pressão de alguns conterrâneos seus. O mesmo ele fez com Capitólio, por achar Arraial do Cabeças, nome de então, muito sem estética.
“Se não houvessem técnicos seria preciso inventá-los, é uma gente mirabolante”. Crítica dura contra um engenheiro, Dr. Janot Pacheco, que, enviado de BH, para verificar a ponte Mello Viana, afirmou que a mesma ainda poderia esperar para o reparo. Dois anos depois o serviço teve que ser feito, a um custo dez vezes maior! Para conhecimento, essa ponte teria sido a maior, em extensão, da América do Sul.
Era dotado de uma cultura humanística invejável: tanto os filósofos gregos quanto os poetas romanos lhe eram familiar. Referindo-se a Raul Soares anotou: “Ele tinha tudo de Parsifal – o povo havia achado o seu gedeão e o entusiasmo fremia em cada coração” – Parsifal – um drama (musical) em 3 atos de Richard Wagner, onde Parsifal é o cavalheiro que descobre o Santo Graal. Ainda estudante, encabeçou a “Fundação dos Mineiros do Rio de Janeiro” em 1887, como 1º. Secretário.
“A coragem consiste em vencer o medo” – Isto ele tinha de sobra: impressiona ver quantas vezes a sua vida esteve em risco, tanto defendendo suas idéias, quanto estudante no Rio, como na vida de todos os dias – duelo (que não aconteceu) com Newton Campos, perdeu um trem que ia de Cherbourg para Paris. O trem descarrilou e morreram 37 pessoas. O incidente com o Dr. Nabuco de Gouveia, na assembléia do Rio, quando este afirmou que “mineiro era covarde”.
Este homem simples, rude nas suas lides da fazenda (Capão Quente) sabia se paramentar e, com toda a “finesse” se portar, por exemplo, em um jantar de gala, quando foi recebido pelo Dr. Blanchard, em Paris, um dos maiores parasitologistas de todos os tempos, de quem o Dr. Sano foi aluno, por um ano. Um dia, quando conduzia uma boiada, antes de chegar a Guapé, um portador lhe entregou o telegrama do Dr. Raul Soares, pedindo-lhe para comparecer, com urgência à capital mineira, onde seria convidado a se candidatar a Senador, na assembléia de Minas.
Um Zola tupiniquim, ele descrevia com maestria e crueza, cenas do cotidiano, como essa, entre seus parceiros de jogo: “como era tomador de rapé inveterado, acumulava-se-lhe sempre na ponta do nariz, um muco visguento e elástico que ameaçava volta e meia a cahir, retraindo-se em seguida como si se arrependesse (pág.292) - e acrescenta: “os colegas de jogo apostavam se cairia ou não e quando limpava na manga do paletó, empatava”. Ele escreveu “paletó” – ninguém saía às ruas em manga de camisa, mesmo com 40 graus de temperatura!
Homem de ação e de comprometimento, quando da sua entrada para o partido PRM, ele afirmou: “E todas às vezes que eu me lobrigo uma finalidade no meu destino, eu me transfiguro e emprego um esforço indomável para relisal-a(sic). Entrei de corpo inteiro no partido e com elle arrostei os maiores perigos na revolução de 1930”.
É sua a frase: “a mendigar com o peito carregado de medalhas” referindo-se aos guapeenses, ex-soldados da Guerra do Paraguai. Sim, sim, nós tivemos os nossos heróis de guerra! Cadê o monumento a eles dedicado? Em todas as cidades francesas, por menor que sejam, existe um monumento que homenageia os heróis mortos pela pátria! Mesmo que sejam guerras que não têm nada a ver, em regiões longínquas como a Indochina ou perto como a Argélia. Outra triste realidade de países, como o nosso, que não respeita os seus soldados abatidos na defesa da pátria. Por longos anos o Dr. Sano lutou para que a famosa “Sudoeste”(a rodovia que ligava belo Horizonte ao sudoeste de Minas) passasse pela cidade de Guapé. No final, ela foi construída do outro lado do Rio Grande, passando por Santo Hilário, Capitólio, São José da Barra e Passos.
O Dr. Sano nos deixou em 1951, quando já era governador outro ilustre mineiro, o também médico Juscelino Kubistchek. O presidente dos “50 anos em 5”, não podia perder tempo. Junto com a sua posse aconteceu a identificação do local mais adequado para a construção da Barragem de Furnas. Fosse o Dr. Sano então dos nossos, muita coisa não teria acontecido. Muito provavelmente os nossos pais, avós, etc. tivessem recebido indenizações justas, pelas suas terras férteis, submersas. O município teria garantido vias de acesso e estradas, no mínimo, iguais as que já existiam, sem que seu povo sofrido, tivesse (e tenha ainda) que ficar pendurado em balsas improvisadas, sub-dimensionadas, inadequadas e perigosas, algumas com mais de 60 anos de uso! Prefeitos ignorantes, fracos politicamente, não tiveram condições de enfrentar o grupo do Juscelino “trator” que, com o apoio das empreiteiras, (as mineiras tornaram-se as maiores do Brasil em poucos anos!) de políticos descompromissados com o povo que representavam e de partidários do progresso a qualquer preço, não respeitou o nosso povo que, tal qual uma Joana-D´Arc, viu-se imolado no altar de um Brasil que queria se tornar maior e mais moderno. Quantas fazendas, desbravadas com o suor de gerações inteiras, simplesmente desapareceram do mapa, para que o progresso do Brasil pudesse acontecer? Quantas famílias destruídas, separadas, “judiadas” pela falta de condições de, com a indenização, conseguir um terreninho na cidade grande? Não há como ser contra ao progresso, mas o Dr. Passos Maia , com a sua audácia, com o amor à sua terra e à sua gente, teria batalhado incansavelmente, para que não houvesse tanta injustiça e tanta dor. A desgraça, implantada há quase 50 anos, continua devastadora, pois o povo ficou pobre, a cidade menor, com uma enorme porcentagem de suas terras submersas, 100% delas, terras de cultura (férteis). A “esmola” que Furnas devolve nos dias atuais, pelo que sei, sequer cobre o que as prefeituras deixam de arrecadar em termos, apenas, de imposto territorial. E a perda de produção, de riquezas? “O maior mal do Brasil, é a falta de justiça. Todos, mesmo os peores assassinos têm, no fundo da consciência o sentimento do justo e do injusto. Quanto mais débil é o que sofre a injustiça, mais aguda é a sua dor”, escreveu o Dr. Sano em seu livro, GUAPÉ. Então fico aqui, a imaginar um dialogo entre o mais ilustre dos mineiros do Brasil, Juscelino Kubistchek, com o mais ilustre dos guapeenses de Minas Gerais, o Dr. Passos Maia. Muito provavelmente nem Gaïa (a Terra) salvaria a nossa Guapé, da fúria de Posseidon (a água, o mar), neste embate interminável entre o bem-estar de um povo e o progresso de uma região, de um país. Guapé, nos seus quase 200 anos, não viu nascer ninguém com tão admirável biografia. Grandioso e eminência em todas as dimensões da pessoa humana, ouso afirmar, sem hesitação, que ele é o melhor modelo para todos nós, guapeenses. O seu livro, editado em 1933, nunca mais, salvo engano, teve outras edições, o que é lamentável. Penso, na minha modéstia opinião, que se deveria editá-lo novamente. A razão é simples: ali está o período áureo da história de Guapé, ali está a biografia do maior guapeense de todos os tempos. Nestes tempos difíceis, onde o senso moral e cívico anda cambaleante, onde político passou a ser sinônimo de corrupto, principalmente nas altas esferas da nossa governança, nossos jovens poderiam descobrir, lendo essa obra, que é possível fazer política sem corromper, fazer estradas, túneis, barragens sem roubar. Nossos jovens precisam de modelos e o Dr. Sano seria o melhor que poderíamos desejar. Porque não pensar, por exemplo, na possibilidade da prefeitura, em parceria com a sociedade civil de Guapé (comerciantes, profissionais liberais, etc.) poder tomar para si, a responsabilidade pela reedição dessa obra e, melhor ainda, adotá-la nas escolas da rede municipal? No lugar de textos insossos, que nada dizem/significam para os nossos pequenos estudantes, teríamos histórias reais, de nossa gente, de pessoas que conhecemos (os descendentes), de lugares que conhecemos (menos aqueles que Furnas nos tomou, para sempre). O último sonho: muitos jovens universitários de Guapé, possivelmente, como em muitos casos de que tenho conhecimento, ficam à procura de assuntos para os seus famosos TCCs (Trabalhos de Conclusão de Curso). Porque não utilizar este tema?
Campinas, março de 2010
Wenceslau AVILA



