11 de maio de 2018

Texto: Wenceslau Ávila

MÃES PROVEDORAS... De amor, de comida, de conforto, de companhia, de carinho, de atenção, de cuidados! A lista não para aí! Todos nós que nascemos/vivemos na zona rural, em fazendas ou na roça tivemos

Texto: Wenceslau Ávila

Texto: Wenceslau Ávila

MÃES PROVEDORAS... De amor, de comida, de conforto, de companhia, de carinho, de atenção, de cuidados! A lista não para aí! Todos nós que nascemos/vivemos na zona rural, em fazendas ou na roça tivemos nossas mães provedoras. Uma vez mãe, sempre mãe. Repassa um pouquinho a sua história, se você tiver sido um desses. Despois que nascia o primeiro filho (curiosamente o primeiro quase sempre era homem – sonho de qualquer rei de antigamente quando somente filhos homens podiam reinar) era outro nascimento a cada, na pior das hipóteses, 18 meses! As mulheres entre os 20 e os 40 anos, além de mulheres eram mães, ou seja ficavam 20 anos amamentando. Isto mesmo, nossas mães só desmamavam um, quando o outro já estava para nascer. E não era somente isto, longe disto. Mãe na roça cozinhava em fogão de lenha, para toda a família e com frequência para uma penca de “camaradas”: toda manhã, acender o fogo, soprar o carvão da lenha até ficar em brasa, moer o café (odiava quando minha mãe me pedia pra fazer isto), pegar a rapadura em cima do jirau, sobre o fogão, passar o café. Pegar agua na bica, encher as vasilhas, buscar lenha, trazer o feixe de lenha na cabeça, lavar as roupas da casa inteira. Ir pegar abóbora na horta, passar na horta de couve e pegar umas cebolinhas de cheiro, botar lenha no fogão, tirar a gordura na lata, jogar na panela e com a colher de pau ir controlando para não queimar, quando o ambiente em volta ia sendo invadido por aquele aroma de alho frito na gordura quente!. Era quando o arroz, já escorrido, jogado na gordura de porco, tirada da lata de querosene com seu frigir característico e intenso. Das panelas, na beirada do fogão todos se serviam, copiosamente. Um café engolido de pé e de novo na beira do fogão, ou melhor, no rabo do fogão, lá vai a mãe, com uma gamela, enchida de agua com uma grande cuia, para lavar primeiro os pratos e depois as panelas. De tempos em tempo precisava ariar as panelas, com aquela areia branquinha e fininha (buscada no alto da serra); as panelas tinham que ficar brilhantes, o que nem sempre era conseguido, pois o ferro fundido com frequência retinha as marcas de fogo e da fumaça. Até a hora do café da tarde (2 horas) tinha muita coisa pra fazer: lavar roupa da família inteira, passar no ferro de brasa, quase sempre limpar arroz no pilão, torrar o café na panela ( o torrador de fogão era raro). Em muitas épocas do ano existiam as “atividades sazonais” como fazer polvilho, uma trabalheira danada, descascando mandioca, ralando, colocando pra secar, e depois enchendo os cochos e esperar secar. Em época de milho verde, outra trabalheira que ia até a noite, fazendo pamonhas, mingau e bolo de milho verde. Antes de o sol se por, todo mundo precisava jantar e de novo, o mesmo ritual do almoço – do almoço, quando muito, se aproveitava o feijão, ninguém gosta de comer o arroz feito de manhã. Em certas épocas precisava cortar a lã dos carneiros – era um dia inteiro de labuta, esperneio dos bichinhos no assoalho da sala, que no final ficava todo decorado com os montinhos, com aquelas pelotinhas que eles soltavam ao se debaterem com as pernas atadas. Juntar os montes de lã cortada, amontoá-las no quarta da sala e no final limpar toda a sala. Uma vez por semana, quase sempre aos sábados, tinha as quitandas – meu Deus quanta labuta: aquele mundo de formas ou tabuleiros, feitos de lata de querosene, esparramado por todos os lugares da cozinha, desde o rabo do fogão, mesas e até nos bancos de sentar. Cuidar do forno, feito de cupinzeiro, um pano na cabeça varrendo as cinzas do forno, antes de levar para dentro dele uma infinidade de formas de biscoitos, pãozinho do sertão e claro, os pães de queijo. Para lavar roupas, precisa de sabão e sabão na roça não é comprado, ele é feito naquele panelão preto e que, quando quente, gasta dois homens pra pegar. Para fazer o sabão era necessário colher a dicuada das cinzas do fogão – um componente para fazer o melhor sabão. Aos domingos, depois que tirava o leite, somente aquele que sobrava (alguns fazendeiros doavam leite para os vizinhos que quisessem vir buscar no curral, todos os domingos) o que sobra vira queijo. Lá vai ela, botar coalho no leite dentro do latão, depois de coar com um coador feito do pano de saco de sal alvejado. No meio da tarde a bancada de madeira já com os queijos escorrendo e só depois, no dia seguinte subir para a esteira acima do fogão, quase no telhado, para secarem e pegarem aquela cor característica de meia cura e sabor em dobro. Queijo Minas, uai!. Mesmo à noite quando o resto da família fica tomando café e conversando a mãe provedora, fica ali do lado remendando uma calça, pregando um botão que caiu da camisa de alguém. Depois do leite gordo com farinha, tomado no prato, todo mundo ia dormir. Quando não tinha doença nas crianças, só nelas porque uma mãe é de uma resistência vou dizer “divina”, porque quando a mãe falta e se faltar, a vida de todos se torna um inferno. É evidente que durante todo o dia e quase na hora de ir dormir a mãe provedora tem ainda que amamentar – lembram-se? Dependendo da idade do filhinho precisa amamentar quase o tempo todo, nem dá muito tempo de abotoar o vestido, pois precisa já estar pronto para a próxima mamada. O dia da mãe provedora, da roça de antigamente, tinha muito mais do que 24 horas! Mamãe, você foi assim e, é a você, que dedico essas lembranças, a você que nos deixou há tão pouco tempo. Olhe por nós e para nós e dá um jeito de diminuir esta saudade que dói muito, e que vai doer sempre! Filhos, quando perdem suas mães, perdem também, um pedaço de si!

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— Soninha
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