Texto: Marcelo Lagoa
ESTA É UMA "HISTÓRIA ROMANCEADA" SOBRE UMA VIAGEM INFATIGADA, REALIZADA HÁ MUITOS ANOS, NO TEMPO QUE UM CRUZEIRO (Cr$1,00) VALIA DINHEIRO.
Enfim… Férias! Ah! Fim de ano… férias escolares… festas… Essa época evoca lembranças do melhor período do ano, quando esquecemos as agruras dos meses passados e nos vestimos da verde esperança pelos dias vindouros! Morando longe da maior parte de meus familiares, era comum nesta época do ano que aparecessem em nossa casa alguns familiares, parentes, primos e amigos da família. E quando não recebíamos visitas, éramos nós que viajávamos; fosse de carro, ônibus ou de carona. Mas fim de ano inevitavelmente evoca lembranças de viagens.
Foi no ano de 1976. Morávamos em Guapé. Recebemos em casa a visita de um tio — o Joel, irmão caçula de meu pai (pertenciam a uma numerosa família). Casal prolífico (os Almeida), meu avô Daniel e minha avó Elvira tiveram uns treze filhos; e tio Joel foi o último a nascer. Lembro de quando Josias – um dos cem netos de meus avós – fez uma pequena entrevista com o casal de velhos, estreando sua nova filmadora. E admirado, Josias falava: __Puxa-vida, avô! Que casal animado, hein?! E virando-se para a câmera, dizia, apontando para os avós: __Esse casal – meus avós – em toda sua vida, com quase sessenta anos de casados, tiveram treze filhos! Isso mesmo pessoal, TRE-ZE FI-LHOS! E o avô, interrompendo-o para corrigir, complementou o assunto: __Por enquanto, Josias! Por enquanto…
Bom, voltando ao assunto: Mesmo sendo tão numerosos os irmãos na casa do avô, certo dia tio Joel notou a falta de meu pai nas reuniões de família! Meu pai, porém, já completava dois anos que tinha se mudado para Minas Gerais… Então reunindo todas as economias do ano, tio Joel resolveu que queria nos visitar. Como a distância era meio longa, pois o tio morava em Guarulhos (SP) e nós morávamos em Guapé, tio Joel investiu num pequeno e lustroso Gordini (para quem não conhece, o Gordini é exatamente aquilo que seu nome já diz: um carro gordinho). Uma mistura de fusca com carriola de pedreiro, o intrépido veículo se destinou a levar tio Joel, a esposa dele e seus filhos até Guapé, para “aquela viagem” de fim de ano.
Projetado para concorrer diretamente com o carro mais popular da Volkswagem, o Gordini não emplacou nas paradas de sucesso nem ganhou a simpatia dos motoristas da época. E por causa disso, o carrinho levava um carinhoso apelido popular: “LEITE GLÓRIA”. Ou seja, como dizia na televisão o slogan do leite em pó instantâneo: “Desmanchava sem bater”.
Quatrocentos e quarenta e dois quilômetros; de Guarulhos até Guapé! Para ir, tudo bem: O Gordini aguentou. O problema foi a volta! Foram quase mil quilômetros de viagem, ida e volta – sendo quinhentos em estrada de terra, com a família toda dentro do Gordini. E na volta, tio Joel ainda levou meu pai e minha irmã Andréa, de caronas para São Paulo. Uma viagem nessas condições, num carro daqueles, nem São Cristóvão levaria a turma até São Paulo são-e-salvos! E foi dito-e-feito: Para frente de Ilicínea, próximo da estrada que sai para a Ponte Torta (que vai para o Carmo do Rio Claro) a meio caminho para se chegar a Boa Esperança, o Gordini enguiçou. E de repente, sem nenhum aviso prévio, as rodas se abriram, a parte de baixo do carro se soltou e uma peça que chamamos de “bandeja” pranchou no chão de terra cascalhado provocando um estrondo horrível. E em meio a fumaça do carro e poeira da estrada, o Gordini empacou como um burro, esfregando a barriga no chão! Não é à toa que levava o nome de “Teimoso”: Foi um apelido autoproclamado pela Willys (a fabricante do veículo), aludindo à rapidez e estabilidade do carro, que o tornava capaz de enfrentar qualquer viagem, em qualquer terreno… Mas de “teimoso” mesmo o carro não tinha nada! E do carro só ficou a lembrança de um burro empacador.
Sol a pino, carro apertado, crianças pequenas choramingando a mamadeira, (minha prima Raquel e minha irmã Andréa) e meu pai que estava de carona, aflito para chegar logo em São Paulo, onde minha mãe já o esperava há um mês, impaciente. Ela tinha ido primeiro, para fazer o pré-natal de meu irmão Misael. E já estava em trabalhos de parto! Tio Joel ficou sem saber o que fazer. Então meu pai avançando contra a cerca de arames farpados, com fúria arrancou um mourão. E com pedaços do arame da cerca, os dois irmãos amarraram o toco de pau na maldita “bandeja” arriada, calçando-a por baixo do carro!
Até aí tudo bem: O Gordini parou de arrastar a barriga no cascalho da estrada! O pequeno problema agora, era apenas fazer virar as rodas do carro, acompanhando as voltas do caminho cada vez que a estrada fizesse curvas (pois as rodas ficaram travadas por causa do pau de cerca). Keep calm nesta hora… Do not panic, por favor! Para quem já tinha costurado a barriga do Gordini, isto não era nada! Então a cada vez que a estrada apresentava uma curva, tio Joel descia do Gordini e ajudado pelo meu pai levantavam a frente do carro, virava-o para a direita ou então para a esquerda, conforme o sentido da curva. Entrava outra vez no veículo e continuava a viagem (dentro dos limites de velocidade, é claro!) E assim, viajaram uns bons quilômetros neste passeio maravilhoso…
Foi então quando surgiu uma camioneta, que passou por eles a espantosos 80KM/h (naquela época era uma grande velocidade). Parou lá adiante. Olhou para trás. Engatou a ré. E se aproximou do curioso grupo de viajantes. Era um senhor chamado "Geovane", da cidade de Alfenas. E descendo da camioneta, o homem acompanhava a pé ao lado do Gordini, a viagem do meu tio. __Estão indo para São Paulo? (perguntou o homem depois de ver a placa do carro). E meu tio respondeu: __Pois é!… __Com o carro desse jeito?? __Pois é!… __Com essas crianças e com essas senhoras??? __Pois é!… __Não acha que está longe demais pra ir com esse carro???? __Pois é!... O homem não acreditava no que estava vendo. Coçava a cabeça, balançava a cabeça pra lá e pra cá, punha as mãos na cintura… E sempre andando acompanhava meu tio, que sem se importar com a companhia daquele homem, dirigia o Gordini com o olhar atento na estrada. __Mas o senhor não vai chegar lá desse jeito! Então tio Joel largou de dizer “pois é” e com toda a confiança do mundo, com a confiança de alguém que tinha acabado de adquirir seu primeiro carro e estava estreando sua primeira viagem, ele falou: __Ah, vou sim! Meu carrinho é valente! O senhor Geovane, preocupado com as crianças no carro, insistiu: __Moço, me vende esse "carro"! A estrada é perigosa demais. Eu compro de vocês, e com o dinheiro você volta para São Paulo de ônibus, com tua senhora e essas crianças! __Não posso vender! É o único que eu tenho!
Foi um causo perdido: Tio Joel era tão “Teimoso” quanto o próprio carro! Então voltando para sua camioneta, o homem pegou papel e caneta e rabiscando umas palavras, assinou o papel e entregou nas mãos do meu tio. E disse assim: __Ao chegar em Boa Esperança (que já estava bem perto, “logo ali”), o senhor se dirige a um tal endereço onde há uma oficina de tratores e entregue este bilhete ao "Senhor Ricardo". E acenando com a mão, o Senhor Geovane deu tchauzinho para as crianças, entrou na camioneta e foi embora. Não sei se o Geovane ainda vive. Mas foi um bom homem; e tinha dinheiro!
E assim meu tio fez, várias horas depois, quando finalmente chegou a Boa Esperança! E o bilhete que o homem deixou nas mãos de meu tio dizia o seguinte: “Senhor Ricardo, esses rapazes vão indo aos trancos e barrancos para São Paulo. Favor atendê-los e debitar na minha conta. Reze por eles. E muito Obrigado”.
Em 1976, a Oficina de Tratores ficava ali onde atualmente é o "Estacionamento do Supermercado GF". Pessoas mais antigas, moradores de Boa Esperança, certamente vão se lembrar desta Oficina e também de seu dono, que se chamava "Ricardo". E naquele dia os mecânicos de tratores, com suas porcas, ferros, parafusos e máquinas de solda, conseguiram enfim deixar o Gordini “rodável” outra vez!
E assim tio Joel, sua família, meu pai e minha irmã Andréa finalmente chegaram a São Paulo. Meu pai foi pra casa do sogro, aguardando minha mãe que em breve voltaria do Hospital com outra criança nos braços. A Andréa acompanhou meu pai. Tio Joel com sua família foram todos para Guarulhos. E o Gordini... Bom, o Gordini foi logo para o ferro-velho.
======================================================







