Texto de Wenceslau Ávila .
O POÇO DE NOSSOS MELHORES MERGULHOS . Um setembro seco, no ar uma poeira fina e, envolvendo tudo, um sol sem nuvem. Aquele bafor, só encontrado no sertão, que expulsa o suor pelos poros, que escorre pela testa e tira a visão. No horizonte uma bruma cinzenta, misturando o céu com a terra, a ponto de confundir o plano com o inclinado, na hora de mudar o passo. Por séculos, essa combinação de fatores, empurrava índios para dentro dos rios. Hoje, sem selvícolas, são seus raptores, que se precipitam pelos barrancos dos córregos, na busca do mergulho que revigora. O lugar é “os Rodrigues” e o córrego carrega o mesmo nome. Aquele curso d´água que só sai dos trilhos, desculpe do leito, quando chove demais, segue sem correntezas e em alguns pontos, ainda inventa de dar voltas, como no redemoinho, são os poços. Muitos se sucedem e cada um com seus lambaris, suas curvas, seus arco íris. Existem ainda os que escondem o seu fundo, esses são os mais procurados, pelos moleques encalorados. Se tiver uma árvore ao lado ou, o que é ainda melhor, algum barranco, o dia acaba ali. É nesse que acaba a copa, quando o time passa por vários estádios e, para a final, é no maior e melhor onde se comemora a vitória. Aqui, no melhor poço, a comemoração acontece em cada mergulho. Os primeiros, com os pés dentro do poço, quando a cabeça submerge e emerge escorrendo água, o nariz ardendo porque abriu demais. A etapa seguinte já exige uma corrida, pra fazer “tigum”. Aqui conta a distância. Em cada etapa muitos saltos. A água fria do começo incomoda menos, porque o corpo já cedeu alguns graus. Agora tem que subir o barranco. O poço é fundo, se cair de pé, encosta na areia. A sequência continua, cinco, dez vezes. Agora é a hora do frio, na barriga: quem vai de cabeça? Fundura tem, só não pode errar o ângulo. Neste caso a barrigada é certa. No outro: ai meu pescoço! Cada vez que muda o desafio, é no “par ou ímpar” pra decidir quem vai primeiro. Quem fica, vai estudando como fez quem já foi. Vai passando, vai passando o tempo, quando os lábios embranquecem, os olhos querendo saltar das órbitas, o nariz em cachoeira e as mãos “postas”, pra exorcizarem a tremura. De fora o sol queima, já a água que navega só debaixo de árvores, é dez graus pra baixo. Dois já deitaram na grama e outros dois, saindo da água vem fazer companhia. As feições recuperam os seus moldes originais e a temperatura equalizou-se com o ambiente. O tempo passou: meses, anos se sucederam, até que um dia voltamos, desta vez entre irmãos. Como a água parecia mansa, como o poço parecia raso, só a água não tinha mudado parecia até mais fria do que nas lembranças. Ninguém queria fazer feio: primeiro os pés, depois as canelas, até a cintura e...o mergulho, dali mesmo. Aaarrghh!!! – daqui pra frente é só alegria. Quando nossa irmã, a Consuelo, sai lá da outra ponta e vem rompendo a correnteza. -“Que nado é esse Consuelo?” ¬¬-Engolindo água, tremulando a voz: “é bachadinho, machadinho”. E lá vai ela, de mãos postas, levantando água com os pés chapados, até a outra ponta do poço. O poço dos nossos melhores mergulhos. Hoje, a Consuelo não existe mais, foi se encontrar com os anjos. Aliás, também o poço não existe mais, foi tudo assoreado com o traçado da nova estrada Avila – dec22




