Texto de Wenceslau Ávila
UMA ESTÓRIA: O DIA DE FAZER QUITANDAS!
COMO toda casa de fazenda a minha tinha uma sala com assoalho de tabua que fazia barulho sob o pisar das botinas de goma. Depois da sala vinha a varanda que distribuía os quartos e mais à frente um corredor que dava para a cozinha, ampla com seu fogão de lenha e uma bancada de madeira grossa, onde ficava acomodada uma talha de barro com agua, sempre fresquinha. No corredor, que acabamos de passar, havia uma janela à esquerda, que dava para a boca do forno de cupinzeiro, que ficava a quase 2 metros mais baixo.
MINHA mãe, uma ou duas vezes por mês, fazia quitandas. Sábado era o dia, não todos. Neste dia minha mãe se fazia ajudar, algumas vezes pela Geralda do Antônio Martins. Como tudo nas roças, começava cedo: fazendo as massas nas gamelas, de madeira com 4 orelhas, uma em cada canto para “se pegar” melhor. E único: uma vez terminada de amassar, na gamela, a preparação era muito bem alisada por cima e no final minha mãe fazia, com muito capricho, uma cruz de canto a canto.
ENQUANTO isto os gravetos crepitavam no forno formando labaredas como se fosse o interior de um vulcão ou uma câmara ardente. A boca do forno tinha uma tampa que era uma grande pedra, manuseada com um pano grosso para não queimar as mãos. Na cozinha, as formas feitas em geral de latas de querosene cortadas, muito bem lavadas e com as bordas levantadas e cantos bem cuidados com a folha dobrada para não rasgar as mãos. Aquilo cobria todas as mesas, o rabo do fogão, a bancada de água e até parte da prateleira: tinha formas de biscoitos, de pão de queijo claro, mas também dos inesquecíveis “brivios” ou brevidade, tinha o biscoito de rodela um pouquinho doce, o exclusivo pãozinho do sertão e os bolos de fubá.
Nesta hora, minha mãe dava a volta, pela porta da cozinha e ia para a frente do forno, com um pano branco na cabeça e com aquela vassoura de ramo de alecrim, para varrer as cinzas do forno para um buraco que ficava na lateral dele. O teste da temperatura era interessante: uma palha de milho, bem fina era jogada no interior do forno e se ela ficasse retorcida de imediato o forno estava no ponto! Operação rápida para evitar que se perdesse calor. Enquanto isto sua ajudante organizava as formas que pela janela alta iam sendo passadas, uma a uma. Primeiro, colocadas estrategicamente no apoio bem a frente da boca do forno e depois, com uma espécie de pá, também de lata, eram distribuída cuidadosamente no interior do forno.
MOMENTO crucial, onde um verdadeiro balé acontecia no vai e vem das formas entre a cozinha e o forno e depois entre o forno e a cozinha, tudo passando pela janela naquela altura, e tanto minha mãe quanto a Geralda em movimentos precisos, harmonizados para que não se perdesse o calor do forno e nem o ponto das quitandas. Ia chegando a hora dos meninos começarem a se aproximar pois um turbilhão de aromas começava a invadir os cômodos da casa: “mamãe dá um biscoito”? ou, mais comum ainda “mamãe posso pegar um pão de queijo?” – o preferido da maioria. Aquilo era jogado de uma mão pra outra, ninguém aguentava segurar, de tão quente.
Eram várias fornadas e toda vez o mesmo ritual: retirar as formas, jogar mais gravetos, acender o fogo, varrer, testar a temperatura e de novo encher de formas para assar. Até o almoço, costumava ser mais rápido, no fundo era o forno que ditava a cadencia do tempo. Tudo aquilo durava até o meio da tarde, quando se assava a ultima fornada. Depois, ali tudo era recomposto, o monte de cinzas ainda fumegantes, na lateral da janelinha do forno e minha mãe, voltava pra cozinha: era a hora de desenformar as quitandas, espera resfriar bem e só depois colocar nas latas de querosene que haviam sido previamente muito limpas, ariadas com aquela areia branquinha que a mamãe sempre pedia pra gente trazer lá do alto da Serra das Arnicas!
As latas, com as quitandas cobertas com um pano de saco muito bem alvejado, iam para a prateleira da despensa e por uma boa semana, principalmente o café da tarde, quase sempre em torno de 2 horas, era quase uma comemoração. Melhor ainda, era sempre poder oferecer às visitas um “café com quitandas”. Quitandas feitas em casa, com o polvilho de mandioca brava, também feito em casa, em um processo engenhoso e demorado – mas isto, já é uma outra estória.
........................................................................................................... Wenceslau criança, a quitandeira,D.Aparecida sua mãe e coisas para o forno.









