..O FUMO NO UMBIGO ou porque os recém-nascidos morriam no 7º. dia!
Texto:Wenceslau Ávila
Da série “Nasceu o menino”
Ao alcance da minha mão um iPhone. Com ele aberto e, se por um descuido, eu posso, ao apertar uma técnica, acionar alguém do outro lado do planeta, na Europa ou até mesmo no Japão. Como já me aconteceu, nos meus aprendizados com os WhatsApps da vida! Mas não foi sempre assim.
Eu, como muitos dos meus leitores, sou do tempo das parteiras e a minha se chamava Maria Muda – só que ela falava. Porque Maria Muda, não sei dizer. As parteiras tinham o dom. O dom dos nossos destinos em suas mãos, por isso eram consideradas nossas segundas mães. Você também veio ao mundo pelas mãos de uma parteira? Quando nasci minha mãe, como todas as mães de recém-nascidos tinha que ficar 40 dias de resguardo em um quarto escuro. Não quando nasci, mas bem depois com os nascimentos de minhas irmãs, gostava de saborear um pouquinho da cachaça quente e adocicada que a parteira servia para minha mãe. Só um pouquinho. Mas não foi fácil. Na época que nasci o momento mais crítico dos recém-nascidos era o umbigo. Sim. Ao nascer o umbigo era cortado! Ou melhor o cordão umbilical.
Aqui preciso fazer um parêntesis. Quando pequeno ficava de olho nos umbigos alheios, pois achava o meu, que era muito raso, horrível! Comecei a observar que alguns eram afundadinhos e morria de inveja. Mal sabia eu que os afundadinhos eram de gente que hoje chamamos de obesas. Quando olho para o meu, hoje, sinto saudade do umbigo raso daquela época. Não que me considere obeso hoje. Fechando o parêntesis e voltando ao umbigo do recém nascido dos anos 1940/50.
Tão logo acontecia o primeiro berro do recém-nascido e sem se interessar em saber se doía ou não, uma tesourada separava o recém nascido da mãe, com a secção do cordão umbilical. Só que esta ponta precisava ser tratada, curada. E o que colocavam ali para curar? – Fumo e azeite de mamona! Todas as casas da época tinham o seu azeite, normalmente guardado em garrafões, tipo Sangue de boi, pois o consumo era grande: desde seu uso em lamparinas, quando não tinha querosene, até par acurar bicheiras do gado e o pé de mamona tinha em todo lugar. Mas nem todos sabiam fazer - o que tornava o azeite de mamona algo raro e caro!
Voltando ao recém-nascido: colocar fumo e azeite em uma ferida (sim a secção do umbigo era uma ferida viva). Claro não tinha Anvisa na época, para atestar as condições sanitárias nem do azeite e muito menos do fumo, então muitos dos recém nascidos, já no 7º. dia “viravam anjo”,como diz a Soninha, em razão de infecção generalizada. Uma espécie de seleção natural, à la Darwin: imagine se todos os que nasciam na época sobrevivessem, seria uma superpopulação do planeta em poucas décadas – uma de minhas tias deu a luz 23 vezes! “Deus escreve direito por linhas tortas” – não era assim? Pois bem, naquela época perder um recém nascido não era tão dramático como seria hoje, pois as famílias ficavam quase felizes por mandarem um anjinho para junto de Deus. Era comum inclusive fazer fotos de anjinhos antes de serem colocados em lindos caixãozinhos, azul e branco, que mais pareciam caixas de sapato antes de serem depositados em uma cova rasa.
Como dá pra se perceber, eu consegui vencer o teste do 7º. dia, o que não seria nenhuma novidade pois naquela madrugada fria de junho, nas barrancas do Rio Grande no Mundo Novo, a Maria Muda(minha parteira), ao me suspender pelos pés e dar um tapa na bundinha rosada, soltou um palavrão – cuja tradução nos dias de hoje poderia ser: este vai ser foda! Acho que foi graças a isto que ainda estou aqui para contar esta estória.




