MINHAS PROFESSORAS DO PRIMÁRIO
Wenceslau Ávila
Naquela noite, um pouco mais de 8 horas, quando todo mundo já tinha ido pra cama. Só eu e meu pai na cozinha, ele chegou pra mim e disse: “Lau você precisa ir pra escola”. Menos de duas semanas depois, nem bem tinha acordado eu já estava, ali na sala, todo emperdigado, em um terno de criança que mais tarde viria a se chamar de “safari”, quando a Tida, nossa eterna mãe preta (leia-se babá), chegou pra mim e disse: “quem sou eu primo!”.
Foi na garupa do “cavalo preto” (existia o campainha, todo branco e já bem velho), um cavalo grande e todo preto que tinha uma espécie de quisto no meio da barriga, exagamente alí onde a barrigueira pegava – muito bom pra impedir de ela ir pro saco (do cavalo)! Quase uma légua até Jacutinga – primeiro ano primário, quando ainda tinha apenas 6 anos e meio – se levarmos em conta que meu pai nunca tinha frequentado uma escola regular, colocar seu filho na escola com menos de 7 anos era um enorme progresso.
Minha primeira professora: Dona Luzia Natalia Lara – a autentica professora: severa, esbelta, séria e com cara de eterna “biata” (biata em alguns lugares de Minas Gerais quer dizer solteirona, ou se preferirem: casada com Cristo). Naquele primeiro dia, o único que teria a companhia de meu pai, depois teria que percorrer as quase duas léguas a pé, com meus amigos, entre eles o Sirvo do Antoin Martim. Bem logo depois da aula, descendo o morro do cemitério da Jacutinga, meu pai e eu alcançamos um grupo de meninos que seguiam para as suas casa e entre eles o Sirvo e ao passar por eles meu pai disse que a partir do dia seguinte eu faria parte do grupo.
Foi um ano duro, de segunda a sexta, percorrendo quase duas léguas para assistir as aulas da Dona Luzia Natalia Lara, que também viera de Guapé, onde morava com seus pais, Manuel Bernardes e esposa, mas que durante a semana ficava de favor na Jacutinga. A escola funcionava em uma casa do lado esquerda da praça, do outro lado da venda do Realino. No oposto da igreja ficava a casa paroquial, onde o padre João ficava quando havia missa na Jacutinga.
Lembro-me do dia – que vergonha – em que todos os alunos saíram par ao recreio e como sempre, antes de se esparramarem pelo pátio, que na realidade era a rua na frente da casa, faziam uma fila e só depois eram autorizados a irem brincar. Bem todos saíram, se colocaram um atrás do outro, menos eu. Todos perfilados, olhando pra Dona Luzia Natália Lara e na frente dela, eu!!! Ninguém entendia porque eu insistia em não sair do lugar: todos perfilados, ansiosos para sairem correndo, a professora pronta para dar “a licença” e eu ali, atrapalhando tudo! Que dilema – minha botina, cuja lingueta de trás se soltara de cima abaixo, encontrava-se presa pela ponta do sapato da Dona Luzia Natalia Lara, fazendo com que eu não conseguisse sair dali! Minha timidez de roceiro impedia qualquer ação que pudesse me liberar daquelas algemas nos pés!
Não fui feliz naquele ano. Apesar de meu amor incondicional pela minha primeira professora, de meus quase duzentos dias de aulas e de centenas léguas percorridas, no final do ano levei uma bomba – não consegui passar do primeiro ano! Por mim teria parado ali, como muito o fizeram! Mas meu pai era um sonhador, um visionário. Logo ele que tivera o tutor, por alguns poucos meses e que entendia das 4 operações como poucos, não admitia que seu filho ficasse por ali. E mais: atrás do Lau estavam vindo, muitos outros. Pronto, está decidido vamos abrir uma escola na fazenda. Os alunos a gente reúne por aqui: do Joaquim Remundo, do Antoin Martim, do Tino e de casa – até a Cleri, com apenas 5 anos, entrou pro primeiro ano primário.
Arranjos com a Prefeitura de Guapé, o Cantino veio inspecionar, a professora era de casa, A Maria do Tio João Lau e pronto. Mas e a sala? Meu pai, com sua criatividade, mandou pintar um quadro de madeira, fez alguns bancos de madeira e assim pode acomodar todos na casa que antes era do nosso “agregado” Antoin Martin. Só não entendo porque não tinha ninguém do tio Batião Varisto, já que do povo do Zé Baio, eram vários. Esta história precisa continuar! E vai continuar, mesmo porque a minha primeira professora viveu muitas décadas ainda. A ultima vez que estive com ela foi em uma missa da Santa, no mês de maio, na casa da minha mãe em Guapé!
Foto:Luzia Lara está atrás do primeiro anjinho na escada, olhando para baixo. O Wenceslau era um dos ''orêiudinhos''.
E fica nossa homenagem a essa professora, pessoa que foi muito amada em Guapé.




