24 de agosto de 2015

LINDA HISTÓRIA

PÉS DE GALINHA (Por Bernardo Alves) "Passei a infância toda Achando que a minha mãe Gostava de pés de galinha, Comia com tanto gosto Chupava até os ossinhos. "Ninguém come os pés, são meus"- dizia Tod

LINDA HISTÓRIA....

PÉS DE GALINHA (Por Bernardo Alves)

"Passei a infância toda Achando que a minha mãe Gostava de pés de galinha, Comia com tanto gosto Chupava até os ossinhos. "Ninguém come os pés, são meus"- dizia Toda a carne dividia Peito, coxas e titela, Fígado, coração e moela, Mas os pés, os pés era só prá ela. Depois de todos servidos, Então sentava e comia. --- Mas o tempo foi passando, A criançada crescendo, Os maiores trabalhando, A vida foi melhorando. Depois de uma infância dura Começamos Ter fartura. Vi minha mãe na cozinha Tratando de uma galinha E ao contrário de outrora Flagrei aquela velhinha Jogando os pezinhos fora --- Ao notar o meu espanto Aquele coração santo Da minha doce mãezinha Apressou-se em explicar: "Nunca gostei do tal do pé de galinha" É que a carne era tão pouca, Pra tantas bocas não dava, E pra você não ficar triste Eu fingia que gostava." --- E LENDO O CAUSO acima e que acredito ser verdadeiro, lembrei-me de outros causos que ouvi de nossa mamãe sobre essa nossa vovó, essa aí, a Mariana,carinhosamente chamada pelos conhecidos mais chegados e por nós, seus netos de MÃENANA.

ESSA DOÇURA de Mãenana foi abandonada bem jovem, com nove filhos bem aqui da outra banda do rio, em Araúna,sem ter sequer uma chance de como colocar comida em todas aquelas boquinhas, sem ter terras para plantar,ninguém para ajudar, sem nada.A comida era escassa ou nem tinha, as roupas também.Meu tio Dodô, o mais velho,já mocinho virou o chefe da casa e só tinha uma roupa de ir pra roça e uma de vestir em casa, mas nela havia tanto remendo que o jovenzinho nem coragem tinha de ir ao encontro dos amigos no arraial.

ASSIM FOI POR ANOS,mais tarde,nossa mamãe já mocinha e namorando nosso papai, vinha pelo caminho da serra do Mandembo nos dias de missa, de alguma festa, e ele dizia reconhecê-la ao longe pela cor do vestido,é que ela só tinha um.Ê vestidinho danado! Vestia para rezar, vestia para passear, vestia para namorar, vestia para dançar, tirava para lavar, com cuidado pra não rasgar,pois tinha sim que durar,com ele ainda ia noivar.E muitos anos mais tarde,quando já tinha tantos outros, dizia que aquele vestido surrado, foi por ela o mais amado.

E NOSSA MÃENANA dizia, estavam sempre vazias, as panelas que existiam e daí quando pensava, hoje não terei nada, sempre alguém aparecia,era assim todo dia, uma ajuda saía.E um vizinho trazia, a farinha que fazia um ensopado que a meninada comia, tinha dia de mandioca, tinha dia de feijão,aí fazia o caldo com farinha porque assim mais rendia. E nessa labuta assim viveram muitos anos na maior pobreza e com muita nobreza. Meus tios Dodô,Zezé,Pedro,Job,Lilia,Elvira,Irene,Sabina e João.Os Goulart.Até os filhos crescerem foi muito sofrimento.

TIVE VONTADE DE escrever essas passagens porque mamãe dizia que só depois de adulta é que ela atinou, percebeu que nossa Mãenana nunca comia na mesma hora que os filhos, mas sempre no final,lembrava que aí ela pegava sempre os pratos com restos e ficava raspando as sobrinhas com a colher ou raspando as panelas,ela nem sempre tinha o seu prato,isso para assim sobrar mais comida para os filhotes e como era tudo pouco, bem pouco,é certo, ficava sempre com fome.Eles,crianças não percebiam.Só mais tarde quando tiveram filhos é que se voltaram para o passado.Triste análise.

Doce vozinha! Doce Mãenana!

Quantas Mãenanas já rasparam os pratos? Quantas Mãenanas já dormiram com fome? Quantas Mãenanas já comeram sem gostar os pés de galinha?

A vida tem tantos causos! Tantos causos a vida tem! E mãe nunca deixa o filho sem.

Beijinhos,mamãe saudade. Beijinhos,tios saudade. Beijinhos,mãenana saudade.

O MEU TI JOB e o meu Tio João Goulart sobraram para confirmar os causos.Beijinhos tios queridos.Sobraram também muitas folhas escritas por mamãe onde ela escreveu a mão tudo que viveram,a lida na roça,suas enxadas,a comida fraca para o trabalho pesado, o desespero,a descrença,a esperança, o amor entre os irmãos e a doce mãe Mariana Elpídia de Jesus.DE JESUS.

NESSA VIDA, as histórias são escritas de várias maneiras,porém,nos capítulos ou entre um e outro, além das tristezas,tem também muita alegria e no fim tudo vira poesia. E saudade,né? De tanta ruga macia. Última foto e eu sabia.Foi há muitos anos.

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— Soninha
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