FURNAS - A diáspora* dos guapeenses! Por Wenceslau Avila
A chegada das águas de Furnas em Guapé, muitas vezes anunciada, no dia que chegou, ninguém mais acreditava que isto fosse acontecer. Como durou apenas 6 dias, entre o fechamento das comportas na barragem de Furnas e a chegada da água na ponte do Ribeirão da Água Limpa, em Guapé, muita gente principalmente na zona rural, foi surpreendida. O desespero tomou conta de todos, inclusive do pessoal de Furnas, responsável por comunicar a toda a população que a água estava chegando. A confusão se espalhou por toda a região: seis dias para carregar os móveis no carro de boi ou caminhão, destelhar a casa, tirar os tijolos, as portas, as janelas e recolher tudo e levar para um lugar seguro, sem falar no gado e todos os animais da fazenda que precisava levar para as terras de algum parente ou amigo. Algumas pessoas, sem rádio e sem contato com a cidade, descobriram assustadas, na primeira hora da manhã, a água chegando à sua horta ou curral, sem falar naqueles casos em que por birra ou revolta incontida, subiram para o telhado e ficaram lá, jurando que só iriam sair dali mortos. Como a grande maioria não acreditava que as águas fossem chegar, sequer se preocuparam em saber para onde iriam com os filhos, o gado, a esposa, e toda a sua mudança. Para onde ir? Para qual cidade ou estado? Empurrados pelas águas, a mudança em cima do carro de bois, alguns aceitaram a ajuda e foram para casa de parentes, até decidirem o que fazer. O mais grave não é saber para onde ir e sim com que dinheiro comprar uma outra casa ou lote de terras porque Furnas ofereceu uma indenização tão ridícula que a maioria das pessoas, optou por entrar na justiça e demandar. Resumo da ópera: a maioria das pessoas ficou sem as suas terras e também sem dinheiro para comprar outra. Na zona urbana não foi diferente pois os moradores da Guapé antiga tinham casas solidas, amplas, com estilo e sobretudo muito bem construídas. Furnas deu como opção casas, na chamada cidade nova, da pior qualidade, chovendo dentro e sem acabamento final. No final como ficou tudo isto? Para onde acabou indo toda essa gente? Curiosamente não foram sempre as cidades mais próximas que receberam mais guapeenses. Uma das cidades preferidas foi Pratápolis mas também Passos e Ribeirão Preto. Piuhmy, Divinópolis e Formiga receberam bem menos conterrâneos que as cidades citadas antes. Boa Esperança, Varginha também foram destinos procurados e claro Belo Horizonte. Itaú de Minas, Cassia, Capitólio, Ilicinia, Alpinópolis e Carmo do Rio Claro receberiam ainda menos. Fato curioso: algumas cidades do distante Paraná se tornaram destino para guapeenses e a razão era muito simples – o padre dizia que era um lugar abençoado para o nosso povo. Assim, Céu Azul a 550 kms de Curitiba, no oeste do estado, com menos de 10 mil habitantes na época, foi o destino de algumas famílias de Guapé. Fica o registro pra não dizer que não falei das dores! * Diáspora significa a dispersão forçada ou não de populações. Avila – mar/20




