23 de agosto de 2019

(A PROSA ABAIXO FOI EM 1914)

ARI CORREA! ÊTA MENINO QUE ERA LEVADO DAS BRECAS! ELE era mesmo da pá virada.Tá ele aí na sua esquina, frente a sua casa, batizada de ''Esquina do Ari''e isso sem falar nos banquinhos do calçadão, é q

(A PROSA ABAIXO FOI EM 1914)

ARI CORREA! ÊTA MENINO QUE ERA LEVADO DAS BRECAS!

ELE era mesmo da pá virada.Tá ele aí na sua esquina, frente a sua casa, batizada de ''Esquina do Ari''e isso sem falar nos banquinhos do calçadão, é que um também virou ''Banquinho do Ari''.

MAIS de 90 anos teve de janela e depois dos 60 só procurava alegria, as moças bonitas, as amizades.Tinha o lugar em casa para jogar baralho todas as manhãs com sua freguesia costumeira, era amado na cidade, amado pelos filhos e cuidado pela Mariza, uma filha carinhosa, atenciosa e que trazia o pai no maior cortado já que era teimoso e levado das brecas.

NAS manhãs e tardes pegava sua bengalinha e ia bater a bunda naquele banquinho do canteiro da Avenida Brasil.Parecia o banco da "Praça é Nossa" já que cada hora tinha uma pessoa passando e sentando e proseando. Ê, cabecinha boa era a do Ari.Lembrava até do que não precisava.

A PAIXÃO dele era dança,aí entrava no Clube dos 70, encostava a bengalinha e dançava forró até de madrugadinha e de preferência com mulheres jovens e bonitas.Participava de tudo,falava discurso, desfilava de terno,desfilava de mulher,o que vinha ele traçava.Nos Bailes da Terceira Idade, nas apresentações que aconteciam toda meia noite, fez muita gente rir.

DIZIA que desde menino acordava muito cedo,era costume trabalhar,levantava no escuro pra moer cana, fazer rapadura.Trabalhou de carreiro e até hoje gosta de carro de boi, foi caminhoneiro no Rio,São Paulo,Paraná, Goiás e trazia muita carga, Guapé não tinha armazém.Quem tinha caminhão era ele, o Zico da Lica, o Dico, o Lazinho,o Tietié.Carregavam muitas mudanças.

DAÍ FUI PERGUNTANDO...

_Ari, a casa que era de seus pais na cidade foi derrubada.Deu tristeza? _Demais da conta.A gente reunia nela,juntava os irmão tudo, os fios, nóis era em onze. Rodorfinho, Zizita, Walter, Zé Correa,Lauro,Tereza,Maria, Zélia,Carlos,Francisco e eu.Minha mãe ainda perdeu três.

_A meninada nasceu na roça? _Na roça.Sabe a casa que era do Juvenarinho,aquela da subida que tá caindo?Então,era nossa.Meu umbigo tá enterrado lá.

_Só o seu umbigo? _A umbigaiada nossa tá tudo lá.Toda vez que eu passo lá eu lembro, 11 umbigo enterrado.

_O senhor certamente nasceu de parteira.Era a famosa Sá Dionísia? _Não,a nossa parteira era mais antiga,era a mãe da Sá Dionísia, a Sá Marciana.Ela rancava menino nessa redondeza tudo.

_A parteira chegava de véspera ou na hora já do nenen apontar a carinha? _Era assim, meu pai ia atrás da Sá Marciana hora que o nenen já tava pegando embalo, eu mesmo fui a cavalo com ele atrás dela,mas ela não montava no lombo do cavalo de jeito maneira, fazia o caminho a pé andando atrás do cavalo.

_Que mais o senhor lembra? _Lembro dela mijando, acredita? Que trem trapaiado! Cada costume! Deu uma virada, arredou uma perna da ôta, deu de puxá a saia pa frente, pa riba do joelho pa num moiá e chuáááá...chuá..e baixou a saia e seguiu de novo com coisa que num era nada. Nunca esqueci daquela mijada. Era uma muié séria e respeitada.

_Era uma festa quando nascia mais um? _Bão demais da conta.O mió era a sopa de farinha com frango e cardinho.Que bondade! Meu pai separava 6 frangão e deixava engordá. Acho que foi mais de 200 frango só em sopa nos resguardos. Nóis menino,num queria nem sabê, nóis queria era da sopa.E a canjica? Era todo dia padá mais leite e nóis entrava na canjica.Quarenta dia de resguardo,quarenta dia na canja e na canjica. Ô, bondade!

_Então a Sá Marciana tinha trabalho demais? _Nooooossa! Só lá em casa ela puxou 15. Ela rodava esse Guapé inteiro,cada casa tinha na base de 8 a 15 filho. Acho que era assim, o resguardo era 40 dias,se acabava meia noite, meia noite e vinte já tinha sementinha pra brotá de novo.

_E as brincadeiras,Ari? _Brincava e trabaiava tamém, brincava em roda da casa, no mato...Sabe a nossa casa? Era de assoalho e tinha umas greta larga e se chegava visita e se era muié, nóis ia pro porão e ficava oiano por baixo das saia das muié. Eu, o Walter, o Rodorfinho, o Zé...Num esqueço disso.

_Saudade de tudo,Ari? _De tudo.Essa vida é muito boa. De irmão agora é só eu, a Maria e o Francisco que é mais novo.Tudo tá bão. Esse Guapé é muito bão. Essa esquina é muito boa.Esse meu banquinho é muito bão. Esses meus fio é bão demais. Dançá é mió ainda.Eu num tenho que reclamá da vida,não.

_E a D.Aparecida? _Então, tive a Aparecida,uma muié muito boa,cozinhava bem que só vendo, morreu nova, me deixou os fio, Marina,Mariza,Marília,Élbio e Geralda. Agradeço a vida que eu tenho, ô,vida danada de boa! E agora viúvo, bão é ver as muié nos baile, dançá garradinho, vai cê bão pra lá, penduro nelas e mando a bengala pra lá.

_Ari, o seu bom humor sempre existiu? _A Mariza minha gosta de falar que eu era azedo demais e que depois dos 50 que dei de miorá. Eu nem sabia que eu era azedo. Ela é implicante, acha que é minha mãe,diz ela que eu era um purgante.

_Ah! É verdade que a Mariza te colocou de castigo depois de um baile? _Pió que é verdade.Eu recebo minha aposentadoria e gosto de encher o bolso, levar mau ordenado tudo e eu teimo,aí enchi o borso,fui, dancei até quase cair das pernas, bebi uns mé demais porque carrego uma garrafinha dia de baile, tinha três lá que ficou na maior coisa comigo, o baile inteiro, faltava me carregar, e foi isso até acabar o forró e eu morreno de achar bão, até acabar foi só alegria, mas hora que cheguei em caaaasa...Ê, o trem ficou feio pra mim.

_Que aconteceu? _ O bobinho aqui achando que tava com tudo no balaio. Muito abraço, por mim tava era me passando a mão. Ah! Tava muito...Acabou o baile, vim escorando na Mariza,f iquei tontinho e quando deitei e ela foi guardar meu bolo de dinheiro, cadê? Tinha nada.Uma delas catou meu salarinho. Uma danenta enfiou a mão e catou meus cobre, mas a Marisa ficou braba demaaaais, mas braba memo, quase apanhei.

_Mas e o castigo, foi verdade? _Se foi. Ela me deixou dois mês de castigo, sem pegar em dinheiro. Nem numa pratinha.Ela acha que é minha mãe.Aí eu deixo ela pensar.

_E pra sair do castigo? _Foi assim, a Geralda chegou de Ribeirão Preto, eu contei que tava de castigo, ela primeiro me chamou atenção, depois ficou com dó e combinou com a Mariza de me dar uma chance e fez eu prometer largar de assanhamento. Aí saí do castigo. Até pra chupar picolé eu tinha de pedir a Marisa mandona.

_E agora,Ari? _Uai, desse dia em diante só deixa eu sair com um tiquinho de dinheiro, só pra gastar no dia. Ah! Era 3 novona bonita, conhecida. A Mariza diz que foi tontura e assanhamento. Eu tava rindo atoa. Ah! Tava bão. Nem importei. Eu tava alegrinho, podia roubar até eu.

(Anotei a prosa que foi na cozinha, na mesa,eu,ele e a Mariza.)

E VIVA A VIDA E VIVA TUDO! E VIVA O ARI QUE NUNCA FOI BARRIGUDO.

PessoasMariaTerezaGaiaRosaRosa
LugaresGuapéClube dos 70AparecidaRibeirão Preto
TemasFamília e CasamentoBailes e FestasCrianças e Escola
— Soninha
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