A HISTÓRIA MOLHADA DA FAMÍLIA DO SOLÚ
TUDO era paz na cidadezinha antiga, missa aos domingos, crianças brincando, casas com flores, quintais com árvores, frutas, canteiros de verdura, pracinha, namorados, prosas com vizinhos, muitos e muitos sonhos, inacreditável um rio manso transbordar e inundar de dor tudo isso, mas aconteceu no início da década de 60 em Guapé.
MAIS uma família amada pegou a estrada depois das águas, uma odisséia, como disse a Vânia, penso que atravessar tantas dificuldades, uns menos, outros mais, daria para nosso povo um livro de mágoas e coragem. Já é difícil presenciar uma família em sofrimento, imaginem o que foi uma cidade de dor, todas as famílias numa despedida, indo ou ficando.
PALAVRAS DA VÂNIA: ‘’NOSSA casa ficava na rua debaixo, em frente a Santa Casa. A água já estava na rua e estávamos ainda na casa. Adquirimos uma morada na Cidade Nova, mas ainda não estava pronta. MUDAMOS para uma casinha do fundo do quintal, onde era o atelier da mamãe, apenas um quartinho e uma cozinha. Os móveis ficaram empilhados na casinha da bomba, isto aproximadamente por três dias, pois a água também atingiu este local.
CONSEGUIMOS, então, uma parte da casa de D. Dora, na praça, onde tinha sido um armazém que já havia se deslocado para a parte alta da cidade. Havia ratos em abundância. Depois, com a mudança dos moradores passamos a usar a casa grande.
A ÁGUA já estava também aos poucos tomando a praça também, e por quase um mês ficamos assim e depois mudamos para a casa nova, porém, sem portas e nem janelas, foram colocadas depois.’’
A FAMÍLIA do Solú estava tentando um novo caminho, a fazenda foi inundada, a grande preocupação era de onde tirar a subsistência? D. Luzia era daquelas modistas de nome, costureira de mão cheia como diziam, talentosa, costurou para muitas famílias antes das águas, era famosa pelo talento,mas numa cidade de escombros, cinza, triste, costurar para quem? Guapé empobreceu de repente. As freguesas ou foram embora ou ficaram sem dinheiro ou sem motivos de festa, roupa nova pra quê numa cidade de luto?
NENHUM caminhão carregou a mudança da família para Belo Horizonte, levaram só roupas e objetos pessoais e não teve o dia da partida juntos, a mãe, D.Luzia, foi na frente para receber o hotel que haviam comprado, pois o Antônio que era irmão do Solú, havia comprado outro. Nem todas as famílias saíram sem rumo, algumas tiveram o privilégio de ter esperança como a deles.
FICOU para trás o Solú, a Vânia, o Luizinho o Ciro, o Décio, a maísa e o Gilson. De ônibus, um tempo depois, Solú levou os caçulinhas. Os pequenos guardam poucas lembranças, mas para eles tudo era festa, viajar de ônibus na época era felicidade máxima e de roupinhas novas, certamente costuradas pela mãe, sapatinhos novos, meinhas, os passageiros felizinhos e entornando de curiosidades, pensaram estar embarcando com destino a felicidade.
PALAVRAS DO GILSON:
''Me lembro que quando estava pescando da janela da minha casa (os peixes já trafegavam na rua), à tardinha, minha mãe gritou lá da casinha da horta, fomos correndo (eu e cassianinho do "ti" lizandro) para ver uma cascavel esticadinha no degrau da porta da cozinha.''
PARA a menininha Maizinha,explicaram, falaram dos edifícios e que era uma casa por cima da outra, um tanto de casa. Ela pirou, e o que mais queria era chegar em BH, imaginava uma casa sobre a outra com jardins e quintais, galinheiros, chiqueiros, era a idéia que tinha de casa em Guapé. Para a idéinha do caçulinha Gilsinho, entender o que era edifício, era difícil, não tinha ainda idéia de muito, só sabia o que era pirulito e brincar.
O CIRO e Décio estudavam no Juvenato em Paraguaçu onde estavam uns trinta guapeenses e precisavam terminar as provas e decidirem se descartavam os bailes, os terninhos, roupas da onda, estudavam na capital ou lutavam pela batina e aceitavam o celibato. Acham que aconteceu o quê? Ah! Cirinho e Decinho, os galãzinhos, caíram na saroba, vazaram para o hotel, a nova morada, e a partir daí, só diversão.
A VÂNIA, ficou por bem mais tempo porque trabalhava no Banco Mercantil, era professora, secretária do ginásio. Só um tempo depois foi de vez morar com os pais. A família então se juntou em BH, e todos estudando. Luizinho tornou-se advogado. Décio, médico. Ciro e Gilson, engenheiros. Maísa, dentista.
SEI que o Ciro tem muita saudade dos mergulhos nos poços do córrego com seus amigos e um deles era o Nélio do Tião Fernandes.O Ciro também esteve ligado por muitos anos nas eleições de Guapé,fazia questão de ser convocado para trabalhar,e não faltava, vinha da capital com esse objetivo.
PALAVRAS DO GILSON:
''Me lembro que quando estava pescando da janela da minha casa (os peixes já trafegavam na rua), à tardinha, minha mãe gritou lá da casinha da horta, fomos correndo (eu e cassianinho do "ti" lizandro) para ver uma cascavel esticadinha no degrau da porta da cozinha.''
SEI que o Ciro tem muita saudade dos mergulhos nos poços do córrego com seus amigos e um deles era o Nélio do Tião Fenandes.Cada um tem suas lembranças, mais,ou menos,ou muito pouco, dependendo da idade,mas essas lembranças são suas raízes plantadas entre nossas serras.
D.LUZIA não viveu muito anos, virou anjo bem jovem para tristeza da família e deixou um vazio enorme e muita saudade. Venderam o hotel. Vânia, passou a ser a dona casa, mesmo sempre trabalhando fora, cuidou dos irmãos com muito carinho, é chamada de Naná, muito respeitada e querida por eles.Lá todos trabalhavam.Quem punha a moçada de castigo era a Naná, a Vânia.
O SOLÚ depois de viúvo voltou para a terrinha, morou anos no Grande Hotel, sentia-se bem em Guapé com seu jeito calmo de ser, sempre educado, elegante, de suspensório e um sorriso no rosto. Fazia caminhadas diárias sem compromisso, conhecia todo mundo e proseava. Pelas ruas, era seu costume parar em todas as construções, prosear com os pedreiros. Sempre muito amado e respeitado. Só voltou para BH porque ficou adoentado, idoso, de lá ele partiu para a viagem sem volta, porém deixou saudades.Luizinho seu filho voltou também para Guapé, esse virou anjo muito novo, era um moço muito bonito.
HOJE os irmãos continuam em Belo Horizonte, muito unidos, certamente guardam na lembrança as muitas brincadeiras e os mergulhos nos poços dos córregos da infância, principalmente do Ribeirão da Água Limpa. Possuem parte da fazenda aqui e muito bem cuidada, onde se reúnem numa bonita paisagem,dizem ser um dos mais belos lugares,caprichosa natureza.
COMO pode o leitor perceber, quando o assunto é a inundação da antiga cidade, existe a HISTÓRIA GERAL e dentro dela muitas e muitas outras. Cada família tem a sua História e essa foi a HISTÓRIA MOLHADA da família do Solú.
ABRAÇO DO ‘’BÃO DE PROSA’’ PARA A FAMÍLIA! VIVA TODOS! VIVA TUDO!E VIVA O CHICO BARRIGUDO!









